Revista Brasileira de Cardiologia Invasiva Revista Brasileira de Cardiologia Invasiva
Rev Bras Cardiol Invasiva 2016;24:19-24 - Vol. 24 Núm.1 DOI: 10.1016/j.rbci.2017.08.003
Artigo Original
Intervenção coronária percutânea primária ou de resgate em tabagistas
Primary or rescue percutaneous coronary intervention in smokers
Fernando Augusto Molinari di Castro Curadoa,, , Gustavo Carvalhob, Ana Tereza de Azeredo Bastos Filhob, Wellington Borges Custodioa, Wilson Albino Pimentel Britoa, Marcelo Cantarellic
a Hospital Beneficência Portuguesa, São Paulo, SP, Brasil
b Hospital das Clínicas de Goiânia, Goiânia, GO, Brasil
c Hospital Bandeirantes, São Paulo, SP, Brasil
Recebido 05 Janeiro 2016, Aceitaram 10 Março 2016
RESUMO
Introdução

Apesar da estreita relação do tabagismo com o desenvolvimento da doença aterosclerótica, pouco se sabe sobre as características clínicas e os desfechos relacionados à intervenção coronária percutânea (ICP) em tabagistas com síndrome coronariana aguda no Brasil. O objetivo deste estudo foi analisar o perfil clínico, angiográfico e do procedimento, além de desfechos hospitalares, em pacientes tabagistas e não tabagistas com infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCST) submetidos à ICP primária ou de resgate.

Métodos

Estudo transversal do registro da Central Nacional de Intervenções Cardiovasculares (CENIC) entre 2006 e 2016. A população do estudo incluiu pacientes com idade ≥ 18 anos que apresentassem IAMCST submetidos à ICP primária ou de resgate.

Resultados

Foram incluídos 20.319 pacientes, dos quais 6.880 (34,4%) eram tabagistas. O grupo de pacientes tabagistas era significativamente mais jovem, do sexo masculino e com menor prevalência de comorbidades. À angiografia, os tabagistas apresentaram maior complexidade, com maior prevalência de trombos, de lesões longas ou fluxo TIMI 0/1. Durante o procedimento, os tabagistas receberam stent farmacológico em menor proporção e a tromboaspiração foi mais frequente, bem como o sucesso do procedimento (94,2% vs. 92,1%; p < 0,0001). Na análise univariada, pacientes tabagistas apresentaram menor mortalidade (2,9% vs. 4,5%; p < 0,0001) e menos eventos cardíacos adversos maiores (3,3% vs. 4,8%; p < 0,0001). No entanto, após análise multivariada, o tabagismo não se associou a menor risco de mortalidade.

Conclusões

Embora os desfechos clínicos associados à ICP tenham sido favoráveis aos pacientes tabagistas, a análise multivariada não demonstrou efeito protetor do tabagismo. Tais resultados são devidos às diferenças encontradas nas características clínicas e angiográficas entre pacientes tabagistas e não tabagistas.

ABSTRACT
Background

Despite the close association between smoking and atherosclerotic disease development, little is known about the clinical characteristics and outcomes related to percutaneous coronary intervention (PCI) in smokers with acute coronary syndrome in Brazil. This study aimed to analyze the clinical, angiographic, and procedural profile, in addition to in‐hospital outcomes, in smokers and non‐smokers with acute myocardial infarction with ST‐segment elevation (STEMI) submitted to primary or rescue PCI.

Methods

Cross‐sectional study of the Central Nacional de Intervenções Cardiovasculares (CENIC) registry between 2006 and 2016. The study population included patients aged ≥ 18 years who presented with STEMI and were submitted to primary or rescue PCI.

Results

A total of 20,319 patients were included, of whom 6,880 (34.4%) were smokers. The group of smokers was significantly younger, male, and with a lower prevalence of comorbidities. At angiography, smokers showed greater complexity, with a higher prevalence of thrombi, long lesions or TIMI flow 0/1. During the procedure, smokers received a lower proportion of drug‐eluting stents and thrombus aspiration was more frequent, as well as procedural success (94.2% vs. 92.1%; p < 0.0001). In the univariate analysis, smokers showed lower mortality (2.9% vs. 4.5%; p < 0.0001) and fewer major adverse cardiac events (3.3% vs. 4.8%; p < 0.0001). However, after multivariate analysis, smoking was not associated with a lower risk of mortality.

Conclusions

Although the clinical outcomes associated with the PCI were favorable to smokers, the multivariate analysis did not show a protective effect of smoking. Such results are due to differences in clinical and angiographic characteristics between smokers and non‐smokers.

Palavras‐chave
Tabagismo, Angioplastia, Infarto agudo do miocárdio, Intervenção coronária percutânea
Keywords
Smoking, Angioplasty, Acute myocardial infarction, Percutaneous coronary intervention
Introdução

As doenças cardiovasculares permanecem como a principal causa de morte,1 e o tabagismo é tido como o principal fator de risco modificável para estas doenças, sendo responsável por uma em cada três mortes.2 O tabagismo está associado a um risco maior de morte e a outros desfechos desfavoráveis em pacientes com síndrome coronariana aguda (SCA),3 além de se relacionar com mudanças do perfil lipídico, geração de espécies reativas de oxigênio, ativação plaquetária e disfunção endotelial, favorecendo o processo aterogênico. Ainda, o risco se multiplica por quatro quando o tabagismo é associado a outros fatores, como dislipidemia ou hipertensão arterial.4

O tabagismo leva à lesão endotelial e disfunção celular. Seus efeitos sobre a circulação alteram significativamente o equilíbrio hemostático do endotélio, resultando em aterosclerose e em suas complicações trombóticas. Ainda, os componentes da fumaça de cigarro diminuem a capacidade do sangue de transportar oxigênio e aumentam as exigências fisiológicas do miocárdio.2 O risco cardiovascular atribuível ao tabagismo aumenta com o número de cigarros fumados e com a duração do tabagismo; mas mesmo a exposição a baixos níveis de fumaça de cigarro ou ao fumo passivo pode ser prejudicial.

No entanto, o hábito de fumar foi associado por alguns estudos a um “efeito protetor”, em que pacientes tabagistas submetidos à intervenção coronariana percutânea (ICP) apresentaram menores taxas de mortalidade em curto prazo – trata‐se do chamado “paradoxo do tabagismo”. Muitos estudos sobre o tema foram desenvolvidos ao longo dos anos, e atualmente existe sólida evidência científica apontando que não existe efeito protetor do tabagismo nestes pacientes.5,6 Apesar da estreita relação do tabagismo com o desenvolvimento da doença aterosclerótica, pouco se sabe sobre o perfil clínico e os desfechos relacionados à ICP em tabagistas com infarto agudo do miocárdio (IAM) na população brasileira. Desta forma, o objetivo deste estudo foi analisar o perfil clínico, angiográfico e do procedimento, além de desfechos hospitalares, em pacientes tabagistas e não tabagistas com IAM com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCST) submetidos à ICP primária ou de resgate no Brasil.

MétodosDesenho e amostra do estudo

Um estudo transversal foi realizado no registro da Central Nacional de Intervenções Cardiovasculares (CENIC) da Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista (SBHCI) entre 2006 e 2016. Os dados do banco de dados foram coletados de forma prospectiva por meio de formulários padronizados e armazenados em um registro informatizado. Os dados de pacientes com diagnóstico de IAMCST submetidos à ICP do registro CENIC foram analisados retrospectivamente. A população do estudo incluiu pacientes com idade ≥ 18 anos que apresentassem IAMCST submetidos à ICP primária ou de resgate.

O diagnóstico e o manejo dos pacientes foram realizados de acordo com as rotinas específicas de cada centro colaborador vinculado à SBHCI.

Análise estatística

Para a comparação de variáveis categóricas e contínuas foram utilizados os testes qui quadrado e Análise de Variância (ANOVA), respectivamente. Quando necessário utilizou‐se o teste exato de Fisher ou o teste da razão de verossimilhança. O teste exato de Fisher (tabela 2 × 2) ou a razão de verossimilhança (tabela m × n, onde m e/ou n é superior a duas categorias) foi realizado quando ao menos 20% dos valores esperados foram inferiores a 5. Para verificar a influência de variáveis de interesse em relação à mortalidade, foi utilizado o modelo de regressão logística simples para avaliar óbito em relação a diferentes variáveis independentes. Além disto, foi realizada regressão logística múltipla pelo método de seleção forward, para determinar as variáveis independentes que melhor explicam a ocorrência de óbito. Variáveis com grande ocorrência de dados faltantes foram desconsideradas da análise de regressão logística múltipla (disfunção ventricular esquerda e circulação colateral). Considerou‐se estatisticamente significante p < 0,05.

Resultados

Até a data de corte, o registro possuía 176.780 pacientes e um total de 191.727 procedimentos; foram selecionados e eleitos para análises 20.013 pacientes, resultando em 20.310 procedimentos, com 23.951 vasos tratados.

A idade média da coorte foi de 61,4 ± 12,4 anos, e 20,1% eram diabéticos. Os pacientes tabagistas eram aproximadamente 5 anos mais novos que os não tabagistas, tinham maior proporção de homens e menor prevalência de fatores de risco ou histórico de eventos coronários prévios. As demais características demográficas e clínicas dos pacientes tabagistas e não tabagistas estão descritas na tabela 1.

Tabela 1.

Características clínicas

CaracterísticaTabagismo   
Sim (n = 6.880)  Não (n = 13.133)  Total (n = 20.013)  Valor de p 
Idade, anos  57,7 ± 11,0  63,3 ± 12,7  61,4 ± 12,4  < 0,0001 
Sexo masculino, n (%)  5.180 (75,3)  8.753 (66,6)  13.933 (69,6)  < 0,0001 
HAS, n (%)  4.769 (69,3)  9.672 (74,1)  14.441 (72,5)  < 0,0001 
Dislipidemia, n (%)  3.082 (44,9)  6.556 (50,5)  9.638 (48,5)  < 0,0001 
Diabetes, n (%)  1.075 (16)  2.776 (22,3)  3.851 (20,1)  < 0,0001 
IAM pré, n (%)  582 (8,7)  1.294 (10,4)  1.876 (9,8)  0,0002 
ICP pré, n (%)  538 (8,0)  1.673 (13,2)  2.211 (11,4)  < 0,0001 
RM pré, n (%)  130 (1,9)  386 (3,0)  516 (2,6)  < 0,0001 
Classe Killip, n (%)         
5.236 (76,1)  9.714 (74,0)  14.950 (74,7)  0,002 
II  973 (14,1)  1.937 (14,8)  2.910 (14,5)   
III  290 (4,2)  597 (4,5)  887 (4,4)   
IV  379 (5,5)  878 (6,7)  1.257 (6,3)   

HAS: hipertensão arterial sistêmica; IAM: infarto agudo do miocárdio; ICP: intervenção coronária percutânea; RM: revascularização do miocárdio.

A maior parte dos pacientes apresentou acometimento uniarterial (47,9%), sendo que o vaso mais frequentemente tratado foi a artéria coronária descendente anterior (47%). Pacientes tabagistas apresentavam mais frequentemente lesões trombóticas (61,2% vs. 52,6%; p < 0,0001), lesões longas (32,6% vs. 30,1%; p = 0,0001) e lesões em bifurcação (25,9% vs. 24,7%; p = 0,04). Circulação colateral foi observada mais frequentemente em pacientes tabagistas (16,7% vs. 14,1%; p = 0,0004), bem como fluxo Thrombolysis in Myocardial Infarction (TIMI) 0/1 (71,1% vs. 66,7%; p < 0,0001). As demais características angiográficas estão descritas na tabela 2. O número médio de vasos tratados e stents por paciente foi de 1,2 ± 0,5 e 1,3 ± 0,5, respectivamente, em toda a coorte. A ICP primária foi realizada em 92,5% vs. 93,8% e a de resgate em 7,5% vs. 6,2% de tabagistas e não tabagistas, respectivamente (p = 0,0003). Durante o procedimento, o grupo de tabagistas recebeu stents farmacológicos em menor proporção (3,9% vs. 7,8%; p < 0,0001), a tromboaspiração foi mais frequente (5,8% vs. 4,2%; p < 0,0001), bem como o uso de inibidores da glicoproteína IIb/IIIa (18,9% vs. 15,6%; p < 0,0001). O sucesso do procedimento foi mais frequente entre os tabagistas (94,2% vs. 92,1%; p < 0,0001). Demais características do procedimento estão descritas na tabela 3.

Tabela 2.

Caraterísticas angiográficas

CaracterísticaTabagismo   
Sim (n = 6.880 pacientes/ 6.953 procedimentos/ 8.152 vasos)  Não (n = 13.133 pacientes/ 13.357 procedimentos/ 15.799 vasos)  Total (n = 20.013 pacientes/ 20.310 procedimentos/ 23.951 vasos)  Valor de p 
Extensão da doença coronária, n (%)        0,004 
Uniarterial  3.342 (48,9)  6.210 (47,4)  9.552 (47,9)   
Biarterial  2.083 (30,5)  3.858 (29,5)  5.941 (29,8)   
Triarterial  1.393 (20,4)  2.973 (22,7)  4.366 (21,9)   
TCE  19 (0,3)  46 (0,4)  65 (0,3)   
TCE + multiarterial  1 (0)  2 (0)  3 (0)   
Vasos tratados, n (%)        < 0,0001 
DA  3.610 (44,3)  7.645 (48,4)  11.255 (47,0)   
CD  3.286 (40,3)  5.528 (35,0)  8.814 (36,8)   
CX  1.143 (14,0)  2.210 (14,0)  3.353 (14,0)   
TCE  56 (0,7)  174 (1,1)  230 (1,0)   
Enxertos  57 (0,7)  242 (1,5)  299 (1,2)   
Lesões tipo B2/C, n (%)  2.589 (31,8)  4.538 (27,5)  7.127 (29,8)  0,20 
Lesões calcificadas, n (%)  1.574 (19,3)  3.164 (20,0)  4.738 (19,8)  0,19 
Lesões trombóticas, n (%)  4.989 (61,2)  8.310 (52,6)  13.299 (55,5)  < 0,0001 
Lesões > 20mm, n (%)  2.659 (32,6)  4.753 (30,1)  7.412 (30,9)  0,0001 
Bifurcações, n (%)  2.112 (25,9)  3.905 (24,7)  6.017 (25,1)  0,04 
Oclusões totais, n (%)  5.459 (67,2)  10.132 (64,3)  15.591 (65,1)  < 0,0001 
Fluxo TIMI pré, n (%)        < 0,0001 
0/1  5.799 (71,1)  10.540 (66,7)  16.339 (68,2)   
2/3  2.352 (28,9)  5.258 (33,3)  7.610 (31,8)   
Disfunção ventricular esquerda, n (%)  3.488 (50,7)  6.366 (48,5)  9.854 (49,2)  0,08 
Circulação colateral, n (%)  1.361 (16,7)  2.221 (14,1)  3.582 (15,0)  0,0004 

TCE: tronco de coronária esquerda; DA: descendente anterior; CD: coronária direita; CX: coronária circunflexa; TIMI: Thrombolysis in Myocardial Infarction.

Tabela 3.

Caraterísticas dos procedimentos

CaracterísticasTabagismo   
Sim (n = 6.880 pacientes/ 6.953 procedimentos/ 8.171 stents)  Não (n = 13.133 pacientes/ 13.357 procedimentos/ 15.357 stents)  Total (n = 20.013 pacientes/ 20.310 procedimentos/ 23.528 stents)  Valor de p 
Tipos de ICP, n (%)        0,0003 
Primária  6.431 (92,5)  12.532 (93,8)  18.963 (93,4)   
Resgate  522 (7,5)  825 (6,2)  1.347 (6,6)   
Vasos tratados por paciente  1,2 ± 0,5  1,2 ± 0,5  1,2 ± 0,5  0,60 
Uso de stent, n (%)  6.459 (93,9)  12.071 (91,9)  18.530 (92,6)  < 0,0001 
Número de stents por paciente  1,3 ± 0,5  1,3 ± 0,5  1,3 ± 0,5  0,45 
Stents farmacológicos, n (%)  320 (3,9)  1.196 (7,8)  1.516 (6,4)  < 0,0001 
Diâmetro dos stents, mm  3,12 ± 0,47  3,07 ± 0,47  3,09 ± 0,47  < 0,0001 
Comprimento dos stents, mm  20,4 ± 6,5  20,6 ± 6,8  20,5 ± 6,7  0,16 
Inibidores da GP IIb/IIIa, n (%)  1.311 (18,9)  2.084 (15,6)  3.395 (16,7)  < 0,0001 
Tromboaspiração, n(%)  477 (5,8)  644 (4,2)  1.121 (4,8)  < 0,0001 
Fluxo TIMI pós, n (%)        0,07 
0/1  362 (4,4)  605 (3,9)  967 (4,1)   
2/3  7.803 (95,6)  14.741 (96,1)  22.544 (95,9)   
Diâmetro da estenose, %         
Pré  96,4 ± 8,1  96,1 ± 8,8  96,2 ± 8,6  0,007 
Pós  3,7 ± 9,9  4,2 ± 11,1  4 ± 10,7  0,0001 
Sucesso do procedimento, n (%)  6.547 (94,2)  12.298 (92,1)  18.845 (92,8)  < 0,0001 

ICP: Intervenção coronária percutânea; GP: glicoproteína; TIMI: Thrombolysis in Myocardial Infarction.

Durante a fase hospitalar, não foi observada diferença em relação à prevalência de reinfarto ou revascularização de emergência entre tabagistas e não tabagistas. Pacientes tabagistas apresentaram menor taxa de óbito hospitalar (2,9% vs. 4,5%; p < 0,0001) e menor taxa de eventos cardíacos adversos maiores (3,3% vs. 4,8%; p < 0,0001) (tabela 4).

Tabela 4.

Desfechos na fase hospitalar

  Tabagismo   
Desfechos  Sim (n = 6.880)  Não (n = 13.133)  Total (n = 20.013)  Valor de p 
Óbito, n (%)  195 (2,9)  570 (4,5)  765 (3,9)  < 0,0001 
Reinfarto, n (%)  36 (0,5)  80 (0,6)  116 (0,6)  0,21 
RM de emergência, n (%)  9 (0,2)  9 (0,1)  18 (0,1)  0,11 
ECAM, n (%)  229 (3,3)  636 (4,8)  865 (4,3)  < 0,0001 

RM: revascularização do miocárdio; ECAM: eventos cardíacos adversos maiores.

Os fatores que apresentaram relação significativa com óbito foram sexo feminino, presença de comorbidades (diabetes e história prévia de IAM) e revascularização miocárdica. Da mesma forma, pacientes com apresentação Killip IV, doença triarterial, disfunção ventricular e uso de inibidores de glicoproteínas representaram maior risco de mortalidade. Foi observado, na análise univariada, que não tabagistas apresentam maior risco de óbito (odds ratio − OR = 1,59, intervalo de confiança de 95% − IC 95%: 1,35‐1,87). Entretanto, a análise, quando ajustada, demonstrou que o tabagismo não é um fator protetor para mortalidade (OR = 1,13; IC 95%: 0,95‐1,34; p = 0,16). As características clínicas que sugeriram associação positiva e estatisticamente significativa para óbito foram idade, sexo, hipertensão arterial sistêmica, dislipidemia, diabetes melito, histórico de IAM, classificação Killip e extensão da doença coronária (tabela 5).

Tabela 5.

Regressão logística múltipla

  Estimativa  Valor de p  OR  IC 95% 
Constante  ‐3,84  < 0,0001     
Idade, anos  0,03  < 0,0001  1,03  1,02‐1,04 
Sexo (feminino vs. masculino)  0,25  0,006  1,28  1,07‐1,53 
HAS (sim vs. não)  0,22  0,04  1,25  1,01‐1,53 
Dislipidemia (sim vs. não)  0,31  0,001  1,36  1,13‐1,63 
Diabetes (sim vs. não)  0,24  0,02  1,27  1,04‐1,54 
IAM pré (sim vs. não)  0,39  0,001  1,48  1,16‐1,87 
Killip (I vs. IV)  ‐3,38  < 0,0001  0,03  0,03‐0,04 
Killip (II vs. IV)  ‐2,38  < 0,0001  0,09  0,07‐0,12 
Killip (III vs. IV)  ‐1,31  < 0,0001  0,27  0,21‐0,35 
Extensão da doença coronária (bi vs. uniarterial)  0,55  < 0,0001  1,73  1,38‐2,15 
Extensão da doença coronária (tri vs. uniarterial)  0,81  < 0,0001  2,24  1,8‐2,78 
Extensão da doença coronária (TCE vs. uniarterial)  2,05  < 0,0001  7,73  3,46‐17,28 

HAS: hipertensão arterial sistêmica; IAM: infarto agudo do miocárdio; TCE: tronco de coronária esquerda; OR: odds ratio; IC 95%: intervalo de confiança de 95%.

Discussão

O presente estudo é uma das maiores análises já realizadas em pacientes brasileiros com IAMCST, tabagistas e não tabagistas, submetidos à ICP primária ou de resgate, abrangendo 20.013 pacientes. O tamanho expressivo da coorte confere robustez ao estudo observacional, e os dados apresentados são da prática clínica atualizados dos últimos 10 anos no Brasil. Embora os desfechos clínicos tenham sido favoráveis aos pacientes tabagistas, a análise multivariada não demonstrou efeito protetor do tabagismo neste grupo de pacientes.

Cerca de um terço dos pacientes desta amostra eram tabagistas. Este dado é concordante com estudos prévios, que afirmam que 25 a 50% dos pacientes com doença arterial coronariana se declaram tabagistas no momento da ICP.7–10 Publicação do registro CENIC de pacientes tratados por ICP entre 2006 a 2012 mostra maior frequência de tabagistas quando comparados à nossa série, mais contemporânea (38% vs. 34,4%).6 Ademais, considerando que a prevalência de tabagistas na população brasileira é de aproximadamente 17%, a prevalência de tabagismo do presente estudo pode ser justificada pelo fato de que o tabagismo é um fator de risco para doença arterial coronariana.11

A idade média dos nossos pacientes tabagistas foi de 57,7 anos, ou seja, aproximadamente 5 anos mais jovens que os não tabagistas. Nossos dados estão de acordo com a literatura, em que pacientes com histórico de tabagismo são mais jovens, mais frequentemente do sexo masculino e apresentam menos fatores de risco cardiovasculares.7–9

As características angiográficas dos fumantes foram distintas dos não fumantes. Neste estudo, os tabagistas apresentaram maior frequência de doença uniarterial e maior complexidade da lesão tratada, com maior prevalência de trombos, lesões longas ou em bifurcações, e fluxo TIMI 0/1. A patogênese da oclusão coronária nos tabagistas está relacionada a maior componente trombótico que aterogênico, devido ao impacto do tabagismo na ativação e agregação plaquetária, na vasoconstrição coronária e no aumento do fibrinogênio.12 Embora a doença uniarterial esteja associada a menor acometimento aterosclerótico, foi mais frequente na coorte de tabagistas e pode estar associada ao perfil etário mais jovem deste grupo,13 impactando diretamente na frequência de vasos tratados e stents por paciente.14

Apesar de mais jovens, os tabagistas apresentaram circulação colateral mais visível que os não tabagistas. Tal característica não foi congruente com estudos anteriores, que mostraram que pacientes mais idosos apresentam maior presença de circulação colateral quando comparados a pacientes mais novos.15

Similarmente aos resultados anteriores do registro CENIC,7 foram observadas alta taxa de sucesso clínico (94,2%) e baixas taxas de revascularização miocárdica de urgência ou óbito hospitalar (2,9%) entre os tabagistas. Embora um efeito paradoxal do tabagismo tenha sido observado, a análise multivariada não confirmou esta associação com menor mortalidade hospitalar. Adicionalmente, estudos avaliando a mortalidade em longo prazo associam desfechos desfavoráveis aos tabagistas.16 Steelle et al. reportaram uma taxa de mortalidade em 1 ano de 8,3% em uma coorte com tabagistas (7%), ex‐tabagistas (9,2%) e não tabagistas (6,4%).17 Outro estudo, com 6.676 pacientes com IAM selecionados para o estudo TRACE (TRAndolapril Cardiac Evaluation), apontou que a mortalidade em longo prazo foi menor entre os tabagistas do que entre os ex‐ ou não tabagistas. No entanto, a análise ajustada não forneceu nenhuma evidência para sustentar a existência de um paradoxo do tabagismo nesta população.22 O estudo OPTIMAAL (Optimal Trial In Myocardial Infarction with the Angiotensin Antagonist Losartan) analisou pacientes com IAM e evidência de insuficiência cardíaca randomizados para captopril vs. losartana. A taxa de mortalidade não ajustada entre os tabagistas foi 17% menor do que entre os não tabagistas, mas este risco reduzido foi eliminado após o ajuste para idade e outras diferenças iniciais.15 Por fim, o estudo GRACE (Global Registry of Acute Coronary Events) investigou 19.325 pacientes hospitalizados com diagnóstico de SCA e apontou que a taxa de mortalidade hospitalar entre tabagistas foi metade da apresentada por pacientes que nunca fumaram (3,3% vs. 6,9%). No entanto, não houve diferença significativa na estimativa do risco relativo ajustado para os tabagistas em comparação com os que nunca fumaram. Estes resultados foram consistentes em todos os três subgrupos da população da SCA estudada (IAMCST, infarto sem elevação de ST ou angina instável).18 Estes estudos apresentaram evidências robustas contestando o efeito protetor do tabagismo e demonstrando que tal efeito paradoxal não existe.8,18,19 Na revisão sistemática de Aune et al., o fenômeno do efeito paradoxal ocorreu predominantemente em populações tratadas com fibrinólise. Mesmo após a avaliação de 17 estudos, os autores concluíram que o tabagismo não reduz o risco de desfechos negativos, e a recomendação é ressaltar os benefícios da cessação do tabagismo.16 Da mesma forma, nossos resultados não podem ser associados a um efeito protetor do tabagismo, pois a associação da mortalidade com o tabagismo não foi confirmada pela análise multivariada.

Limitações

Dentre as limitações, destacamos a natureza retrospectiva do estudo, sujeita a possíveis confundidores não incluídos nas análises. Além disto, a definição de tabagismo foi feita em cada instituição, não sendo padronizada.

Conclusões

Embora os desfechos clínicos associados à intervenção coronária percutânea primária ou de resgate tenham sido mais favoráveis aos pacientes tabagistas, a análise multivariada não demonstrou efeito protetor do tabagismo neste grupo de pacientes. Tais resultados estão associados às diferenças nas características clínicas, angiográficas e do procedimento.

Fonte de financiamento

A Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista forneceu suporte financeiro.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Agradecimentos

À Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista e a todos os médicos e instituições envolvidas no registro CENIC.

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A revisão por pares é de responsabilidade da Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista.

Autor para correspondência: Rua Edmundo Pinheiro de Abreu, s/n, apto. 601, Condomínio Solar Belvedere, CEP: 74823‐040, Goiânia, GO, Brasil. (Fernando Augusto Molinari di Castro Curado drfernandoamdiccurado@gmail.com)
Copyright © 2016. Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista
Rev Bras Cardiol Invasiva 2016;24:19-24 - Vol. 24 Núm.1 DOI: 10.1016/j.rbci.2017.08.003
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